Um forte cheiro de éter. As paredes possuem azulejos encardidos ate a altura de meu peito. O tempo deixou sua marca nas rachaduras e a umidade do lugar chegava a dificultar a respiração. Uma pia baixa e igualmente suja , identificavam o aposento como uma cozinha. Uma lâmpada de no máximo 30 watts, pendurada a baixa altura, deixava o ambiente amarelado e mal iluminado.
- Por causa da conta da luz. - Disse o velho de aproximadamente 70 anos, como se justificando.
Numa das paredes, as seis geladeiras, davam noções exatas do tempo em que foram compradas, num visual que mais lembrava um museu de eletrodomésticos. Uma mesa com base de aço inox e pernas de um balcão de açougueiro, finalizavam os itens de mobília. Nada de fogão, nem cadeiras, nem talheres. O velho destrava a geladeira mais antiga e a lâmpada interna, enche o lugar de luminosidade.
- Essas geladeiras não param nunca, só para degelo mesmo. Uma fica de reserva para essas situações, ou quando uma quebra. - Explicou-me o velho.
Com agilidade de uma criança, o idoso vai retirando os embrulhos gelados. São plásticos de supermercado, amarrados com barbante. Haviam de diversos tamanhos, e alguns eram tão grandes, que foi necessário remover as prateleiras da geladeira para armazena-los. Vários vidros de maionese foram reutilizados para guardar os itens menores. Os Etiquetas manchadas de sangue, traziam a identificação dos itens.
"Dedinho do Lula" a informação esta colada no vidro. Dentro, um pequeno pacote , igualmente amarrado, o dedo do presidente. O velho sorri e me aponta orgulhoso, o embrulho que colocou sobre a mesa de inox:
- Olha esse! Comprei a uns 3 anos. A perna de Lars Grael. Está bem machucada, mas ainda dá pra aproveitar algo. A do Roberto Carlos é mais cara e fede muito.
- Não vim a procura de pernas, o senhor sabe disso. - Falei desinteressado.
- Esta bem, esta bem! - Diz o velho abrindo a geladeira seguinte.
Num pequeno vidro com tampa de aço, provavelmente de alguma geléia importada, encontra-se meu objetivo. Ele passa a mão na tampa e confirma a etiqueta. Eu esfrego as mãos ansiosas. O velho finalmente me passa o pote. Eu o recebo e delicadamente abro pequeno recipiente. Envolto de gaze, eu pego com cuidado profissional, o minúsculo pedaço da membrana. Eu tenho na palma de minha mão, o cabaço da Sandy.

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